Porque vemos tantos acidentes com Hilux?

Porque a Hilux tem essa fama de ser uma caminhonete de estabilidade ruim e perigosa?

capotalux

Capotalux, Tombalux e outros apelidos são vistos constantemente em sites e fóruns, a até em rodas de conversas, quando se fala da Hilux, a caminhonete da Toyota que ganhou fama de tombar com relativa facilidade.
Mas, essa fama é justa? Ou trata-se de exagero do povo que gosta de brincar com tudo, até com coisas muito sérias?

Essa foto de entrada deste artigo veio de uma reportagem recente, acompanhada do título: “CAMINHONETE COM TRÊS CRIANÇAS E UMA MULHER CAPOTA NA MT 220”. Uma pesquisa no Google com as palavra-chaves certas vai nos retornar muitas outras reportagens semelhantes.
Neste caso, mão e filhos sobreviveram, mas nem todas as histórias terminam bem.

Mesmo antiga, essa fama da Hilux acabou sendo reforçada recentemente, quando por duas vezes ela foi reprovada no famoso “teste do alce”, ou “moose test” em ingês, como é chamado pelos aplicadores do teste no exterior.
Apesar do que a maioria das pessoas pensam, este teste não é para avaliar o comportamento da caminhonete ou de qualquer outro veículo para desviar de um alce. É comum ver pessoas mal informadas justificando que não existem alces em estradas brasileiras. Parece piada, mas muitos dizem isso, principalmente os fanboys da marca.
Existem outros absurdos, como do condutor fazendo uma curva a 100km/h ou outro sugerindo fazer outra curva a 120km/h para confirmar a estabilidade do modelo.
Tudo isso são bobagens de quem não entende a real dinâmica do teste.

O teste do alce não tem como objetivo avaliar a caminhonete fazendo uma curva, muito mesmo saber qual a capacidade dela de se desviar do animal.
A intenção do teste é avaliar o comportamento dinâmico da caminhonete num eventual desvio rápido com a posterior retomada da faixa da via. Essa é uma manobra evasiva muito comum, e tem como objetivo desviar de qualquer coisa à frente do veículo na via, e retornar imediatamente à faixa original.
Aí podemos considerar, além de animais na pista, objetos caídos, carga desprendida de caminhões, um acidente envolvendo uma motocicleta ou outros carros logo à frente, ou qualquer situação onde algo se posicione em frente ao veículo e seja necessário fazer um desvio rápido.
Situações como esta são bastante comuns, e colocam à prova a capacidade do veículo de manter um comportamento dinâmico controlado e seguro.

Ao contrário de uma curva regular feita em alta velocidade, a manobra realizada no teste do alce ocorre normalmente numa condição inesperada, súbita e com uma exigência muito maior da capacidade de controle do veículo. É uma manobra onde até o condutor ocasionalmente se perde na sua ação, agindo muitas vezes pelo pânico e fazendo frenagens e movimentos rápidos sem previsão, dependendo do veículo para ter de volta o seu controle.
O balanço da carroceria é maior, pois ela é jogada para os lados pelo menos três vezes nessa manobra. O controle de estabilidade, quando existente, é muito exigido, e outros fatores influenciam no sucesso dessa manobra.

Caminhonetes, por conta de sua própria forma construtiva e sua altura, já apresentam uma dificuldade maior para a realização deste teste com sucesso.

Um dos problemas que as caminhonetes sofrem é com a velha suspensão traseira feita com feixe de molas. É uma concepção antiga e que, entre outros problemas, não oferece uma estabilidade muito favorável ao conjunto, fazendo com que as rodas percam muito o contato com o solo em pistas irregulares, o famoso “pula-pula” que muitos donos de caminhonetes não gostam, e principalmente os ocupantes do banco traseiro.

Além dessa característica desfavorável desse tipo de suspensão em uso normal, o contato irregular com o piso, desta forma como ocorre, não colabora muito com o controle eletrônico de estabilidade, que justamente reage e faz correções também com base no movimento das rodas.
Ou seja, uma suspensão ineficiente também reduz a eficiência do controle de estabilidade.

Podemos perceber que em todas as avaliações feitas pelas publicações especializadas e também por proprietários, a Nova Nissan Frontier, vendida aqui a partir de 2017 recebe elogios quanto à sua estabilidade, pois usa um sistema diferente de suspensão traseira, que é o multilink.
O sistema multilink oferece um comportamento muito melhor do conjunto, mantendo uma regularidade de movimento maior e um contato mais constante das rodas no piso. Isso facilita muito o trabalho do controle de estabilidade, que já é aprimorado nessa caminhonete.
Mas, porque a Frontier antiga, que também usava o sistema de feixe de molas, não tinha fama de capotamento? A Frontier segunda geração, fabricada até 2016, tinha um centro de gravidade mais baixo que a Hilux e um menor curso de suspensão, e isso era suficiente para lhe proporcionar um melhor controle das inclinações da carroceria.

Podem perguntar porque a S10, a Ranger ou a L200 não possuem a mesma fama da Hilux, mas não se enganem, estas concorrentes também não são exemplos de uma estabilidade elogiável, tanto que a L200 já passou recentemente por dificuldades no teste do alce com o modelo atual, tendo as suas rodas levantadas do chão e provocando grande decepção.

Na ultima reprovação que a Hilux teve no teste do alce, já com a renovação da caminhonete que, inclusive, já contava com controle eletrônico de estabilidade (ela já tinha sido reprovada também em 2007), ela quase capotou, e isso só não aconteceu porque o piloto de teste virou a direção para o lado contrário do retorno à pista para evitar o acidente, e tudo isso aconteceu na faixa de velocidade entre 64 e 68km/h, ou seja, uma velocidade baixa ainda comparada com os padrões normais de condução do veículo.

Desta vez, a Toyota prometeu “recalibrar” o controle de estabilidade, mudar os pneus e fazer outras alterações que achasse necessárias para melhorar essa situação. Mas, em relação ao que já havia sido vendido ao mercado por anos… nenhuma ação foi tomada.

Comenta-se que estes novos ajustem podem ter modificado outras características da caminhonete, e até hoje a Toyota não deixa claro se algo foi feito em relação à Hilux feita no Brasil.
Fizemos este questionamento em algumas concessionárias, e as respostas variavam, portanto, não havia um consenso sobre isso. Tentamos contato direto com o atendimento da Toyota, mas a atendente também não soube responder. Parece até que estamos exigindo uma informação que é segredo de fábrica, quando na verdade só queremos saber como está a situação do modelo vendido aqui.

Muito já se falou sobre as caminhonetes médias virem a adotar a suspensão multilink, mas a mais recente notícia veio da Ford, que incluiu essa tecnologia na Raptor, que nem é vendida aqui e trata-se de um modelo muito mais caro, dando a impressão que esta evolução ficaria restrita aos modelos premium.
Por enquanto, somente a Frontier disponibiliza a suspensão multilink no Brasil, o que a torna a mais segura das caminhonetes em relação ao risco abordado aqui.

Vamos torcer que a a Hilux melhore nesse aspecto, e que algum dia a fábrica ofereça alguma solução para os modelos já vendidos por aqui.


Modelo anterior reprovado em 2007.


Modelo atual também reprovado em 2016.

 

 

 

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