O que dizem os números de emplacamentos da Fenabrave?

Há um grande engano na forma como o mercado interpreta os números de emplacamentos informados pela Fenabrave.

 

Por: Eduardo Martins

 

A Fenabrave, Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (http://www.fenabrave.org.br), reúne 52 Associações de Marca de automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, implementos rodoviários, motocicletas, tratores e máquinas agrícolas, conforme ela informa, e é uma importante fonte de informações sobre o mercado automobilístico brasileiro.

Ela também fornece diariamente, pelo seu site, através das abas Índices e Números/Mais Vendidos, os números acumulados no mês dos emplacamentos de veículos, e relatórios mensais (no fechamento de cada mês) dos números totais de emplacamentos e outras informações relevantes, através das abas Índices e Números/Emplacamentos.

Estes números são usados muitas vezes de forma equivocada, aliás, na maioria das vezes, pois são interpretados como “número real de vendas”, algo que não corresponde sempre à realidade. O erro é muito comum, e até prestigiados veículos de informações o comete.
Apesar do relatório mensal informar claramente nos seus rankings que trata-se de “Emplacamentos”, a própria entidade acaba confundindo o leitor pelo nome dado a aba Mais Vendidos.
Mas isso não é desculpa para não interpretar de forma correta o que está escrito em destaque nos relatórios.

Mas, qual a diferença entre Emplacamentos e Vendas?

O Emplacamento acontece quando o comprador do veículo já o tem em suas mãos e o leva para emplacar nos órgãos públicos competentes. Já a venda refere-se à aquisição do veículo, mesmo indisponível para retirada ou para emplacamento.

E qual a implicância dessa diferença conceitual?

Em função de suas particularidades, o número de emplacamentos podem não representar o número real de vendas, aliás, é muito provável que esses números jamais tenham coincidido.

As razões para que essa disparidade aconteça são simples, e citaremos apenas algumas.

1. Veículos não emplacados no mesmo mês

A diferença aqui é pequena, mas ocorre. Muitas vezes os compradores adquirem um veículo no final do mês, ou seja, eles são de fato vendidos, mas eles só chegam no começo do mês seguinte. Ou, são até entregues dentro do mês no qual foram vendidos, mas são emplacados no mês seguinte. Ao final, um mês acaba compensando o outro e a média pode até ser considerada, mas, mesmo assim, podem ocorrer desvios mais significativos, quando, por exemplo, um lote atrasado de veículos importados é entregue no final do mês. Neste caso, poderá haver uma impressão de uma queda pontual do modelo naquele mês.

2. Atraso nas entregas

Temos agora um exemplo típico para este caso em particular: a falta de componentes que atinge alguns modelos de veículos. Um exemplo são os componentes semicondutores utilizados na eletrônica dos veículos.
Muitos modelos sofrem com isso, outros não são atingidos.
Assim, o comprador adquire o veículo, mas a entrega de fato é atrasada, em alguns casos, em até meses.
Novamente, apesar da venda ter sido feita, o emplacamento não ocorrerá, e isso pode novamente causar uma falsa impressão de que alguns modelos caíram em vendas, ou outros subiram.
Estamos vivendo isso com grande frequência agora.

3. Emplacamentos suspensos

Tivemos essa situação recentemente em razão da pandemia de Covid-19, onde os novos compradores de veículos se mantiveram em quarentena e não realizaram o emplacamento de seus veículos.
Isso também provocou uma distorção entre os números de vendas e os de emplacamentos.
Greves e outras questões regionais pode provocar o mesmo efeito.

4. Outras razões

Existem outros motivos que fazem com que veículos sejam emplacados que não seja a sua venda, como sabemos e informa a própria Fenabrave. Prova disso é que, por vezes, vemos modelos fora de linha há bastante tempo aparecendo na lista de emplacamentos.

Quais as consequências práticas dessa disparidade pontual dos números?

Como comentamos aqui, publicações do ramo, fóruns e sites (inclusive o YouTube) são invadidos de “análises” totalmente desconexas com a realidade, das mais absurdas possíveis.

Por exemplo, um modelo que vendeu bem mas está com entrega atrasada, logo é avaliado com tendo “despencado em vendas”, “perdido mercado” e assim sofre com interpretações distorcidas e até cômicas como: “precisa se renovar”, “está sofrendo o peso dos novos lançamentos”, etc… Daí para pior, porque algumas análises são realmente assustadoras pela interpretação totalmente irracional.

E, lógico,  modelos que caíram em emplacamentos favorecem o crescimento de outros que, por exemplo, não sofreram com falta de peças. E novas interpretações surgem disso: “o modelo conquistou o mercado”, “esse modelo ultrapassou o outro em vendas“, “o concorrente perdeu mercado”… etc…

E, por nos limitarmos ao mercado nacional, não vamos nem falar em unidades para exportação, que também representam uma modalidade de venda e não são contabilizados nos emplacamentos.

Em contato com a Fenabrave (por e-mail aqui registrado), a mesma nos explicou que os seus números são obtidos junto ao “Senatran, e são os registros dos emplacamentos, tudo que é emplacado”…”existe ai uma série de motivos que causam esses emplacamentos.”
Ou seja, a própria entidade confirma o que dissemos aqui, ou seja, não são número de vendas de fato, e podem ter diversas outras origens.

Acho que conseguimos esclarecer aqui, definitivamente, uma distorção que ocorre no mercado e que causa consequências das mais absurdas possíveis, não por culpa da Fenabrave, que realiza o seu papel corretamente, mas pela falta de interpretação, atenção e leitura mais cuidadosa dos documentos oferecidos por ela.
Como dissemos aqui, isso atinge desde o entusiasta amador de um fórum que usa essa informação ao seu próprio interesse, até veículos conceituados da imprensa que oferecem conclusões distorcidas da realidade.

É preciso ter mais atenção a partir de agora.

 

Vejam também esta reportagem:

Emplacamentos despencam em abril, mas venda real é maior
Foram licenciados 51,3 mil veículos leves no mês, 67% abaixo de março, mas número real pode chegar a 70 mil carros vendidos
https://www.automotivebusiness.com.br/pt/posts/noticias/emplacamentos-despencam-em-abril-mas-venda-real-e-maior/

Foram emplacados apenas 51,3 mil automóveis e utilitários leves em abril, o que representa queda 67% sobre março passado e de 77% sobre abril de 2019, segundo levantamento da Autoinforme. Mas os números oficiais de licenciamentos não refletem integralmente a realidade, pois muitos carros foram vendidos e estão circulando sem placa, devido ao fechamento de boa parte dos Detran no País.

 

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