300 unidades do Ford Maverick vendidas em 24 horas, mas o que há para comemorar?

Muitos canais anunciaram empolgados a quantidade de vendas da nova picape Maverick no Brasil, mas, seria mesmo o caso de comemorar?

 

Por: Eduardo Martins

Uma narrativa muitas vezes é criada com base em interpretações equivocadas, e até a imprensa “especializada” é capaz de criar uma imagem distorcida da realidade automobilística brasileira.

Esta semana vimos alguma empolgação na internet pela venda de 300 unidades da picape importada Maverick da Ford que, supostamente, teria ocorrido 24 horas depois de colocada à venda (há quem diga que parte dessas vendas veio de faturamento para mostruários das próprias concessionárias – pelo menos as que ainda restam).
Mas, o que de fato representa esta notícia e qual a real extensão desse otimismo, se é que ele existe de fato?

A Ford teve uma trajetória final bastante conturbada recentemente no Brasil.
Ela ficou por quase 20 anos sem lançar um novo modelo nacional em nosso mercado, se limitando apenas a fazer atualizações de seu Ford Ka, do Fiesta e da Ecosport.
Mesmo negando que fecharia as suas fábricas no Brasil, a Ford esperou passar o final de 2020, época em que os consumidores juntam suas economias e 13º salário para realizar o sonho do carro novo, e alguns dias depois fechou as suas fábricas sem qualquer aviso prévio.
Isso pegou o mercado de surpresa, provocou uma onda de revolta e indignação deixando o consumidor bastante assustado.
Para atenuar a desastrosa situação, a Ford fez um comunicado ao mercado de que não haveriam prejuízos aos seus consumidores, e que a empresa se tornaria uma “importadora” no Brasil.

Não se passou muito tempo para as concessionárias começassem a fechar as suas portas e, atualmente, mais da metade encerrou as atividades fazendo com que, em alguns casos, donos de veículos tivessem que rodar centenas de quilômetros para realizar uma simples revisão de seus carros.

concessionarias-ford-fechadas

Como já era de se esperar, começou a faltar peças para os modelos encerrados e mesmo para alguns importados, com relatos de espera de quase dois meses por algumas peças. Se o pós-venda da Ford já não era tido como um grande exemplo de eficiência, a situação se agravou ainda mais.

Uma onda de desemprego e o caos econômico se instalaram em várias localidades, com a perda de vagas diretas e indiretas, e fechamento de muitos estabelecimentos que dependiam das fábricas que foram fechadas.

Tentando se recuperar do susto, surge uma nova desagradável surpresa: Apesar de negar a intenção, a Ford fecha também a fábrica da Troller, causando problemas como os ocorridos anteriormente, desemprego, fechamento de estabelecimentos, etc. Desconfia-se que a intenção era evitar que surgisse uma concorrência com o Bronco, um “jipe” mais raquítico que a Ford pretendia trazer (e trouxe) para o Brasil.

Dizem que para facilitar negociações e ações que viria a sofrer, a Ford buscou manter uma imagem de otimismo, trazendo para o Brasil o chinês Territory, um modelo que logo sofreu uma grande redução de preço por estar encalhando nas lojas. O furgão Transit, fabricado numa terceirizada multi marcas uruguaia, também foi lançado aqui sem nenhuma empolgação do mercado, que estranhou a sua garantia de apenas 1 ano no Brasil, quando lá fora é vendido com 5 anos de garantia. Isso provocou mais desconfiança, afinal, porque a empresa aposta num tempo tão curto com relação ao novo modelo?
Tudo isso, óbvio, reforça a suspeita de que as intenções da empresa com o Brasil carrega insegurança e desconfianças, ou é mesmo um planejamento de curto prazo para facilitar as negociações de fechamento, será? Com a palavra a Ford…

Para piorar ainda mais a situação, problemas com os seus carros começaram a ficar esquecidos, como vários defeitos crônicos da Ranger, os problemáticos câmbios Powershift e mais recentemente os motores EcoBoost (que equiparam os Fusion por aqui) que começaram a apresentar falhas graves que fazem com que ele venha a rachar e se fundir, levando o proprietário do carro a gastar até R$ 50.000,00 reais em seu conserto. Chovem reclamações de que a Ford não tem oferecido garantia nesses motores, mesmo que nos Estados Unidos esteja sofrendo ações judiciais indenizatórias pelo problema que, portanto, é bem conhecido por ela.

Assim como o Territory e o Bronco tiveram uma grande procura inicial, vindo a cair rapidamente nos meses seguintes, a mesma situação pode ocorrer com o Maverick, pois internautas dividem opiniões, e muitos demonstram que a marca perdeu a confiança e o respeito de grande parte do mercado.

Fonte: www.carrosnaweb.com.br

Um relato de um colega de nosso grupo de whatsapp dá conta que em Piracicaba, onde ele visitou algumas lojas de carros usados para comprar uma picape pequena, muitos carros Ford usados estão disponíveis. Recentemente os modelos da Ford foram os usados mais vendidos do mercado, e apesar da equivocada sugestão da alguns veículos de informação de que isso demonstrava a força da marca, isso apenas mostra que muitos donos estão desfazendo de seu Ford temendo o dia de amanhã.
As lojas comentaram que até a Ranger, que muitas vezes nem chegava a ficar exposta por conta de lista de espera, hoje pode ficar semanas e até meses para ser vendida, e que hoje evitam comprar modelos da Ford ou aceitá-los em troca, permitindo, no máximo, a venda por consignação.
O mercado tem dado preferência para marcas mais estabelecidas no território nacional.

Com tudo isso, a Ford despencou no ranking de vendas no Brasil, passando da 4ª para a 19ª colocação em vendas de automóveis, com uma mísera participação de 0,27% do mercado, contra os mais de 9% que já teve, e até muito mais no passado.
A Ranger, que já chegou a ser a caminhonete mais vendida do nosso mercado, também viu os seus números irem despencando e outros modelos lhe ultrapassando ou colando em seus resultados de vendas.

Diante desse quadro, será que 300 unidades do Ford Maverick realmente muda repentinamente toda essa desconfiança e desapontamento com a marca?

É preciso lembrar que temos exemplos de lançamentos que ultrapassaram 1.000 unidades de vendas em poucas horas. Muitos que começaram bem e foram logo esquecidos.
Isso deve-se muito ao “Efeito Novidade”. O mercado gosta de ter um modelo “quase exclusivo” nem que seja por algum tempo. Todo lançamento atrai o consumidor, e isso não é só no mercado automobilístico. Quem não se lembra das famosas “paletas mexicanas”, um picolé que quando chegou no Brasil formava longas filas em lojas e quiosques de shopping, mas que apenas um ano depois, 6 de cada 10 franquias do produto já tinham falido, e, ao final, o tempo acabou colocando a novidade no esquecimento.

A caminhonete da Ford sofre com forte concorrência hoje da Fiat Toro.
Pergunte se a Fiat está preocupada com essas 300 unidades vendidas se, somente no mês passado, emplacou quase 3.300 unidades do seu modelo.
E já há anúncio de outros modelos de outros fabricantes chegando para concorrer nesta categoria, fabricados aqui no Brasil, com peças em abundância, de empresas bem estabelecidas que investem aqui, geram empregos e possuem amplas redes de concessionárias.

Importante ressaltar que essas unidades da Maverick vendidas não estão disponíveis no mercado. É isso mesmo… podem acreditar… a previsão de entrega é de 60 dias. Parece que a Ford não confia muito no sucesso do seu próprio produto. Enquanto outros fabricantes lançam modelos aqui com milhares de unidades, ela coloca à venda 300 unidades que sequer disponíveis aqui estão.

Outro detalhes que precisa ser levado em consideração, é que o modelo usa o mesmo famigerado motor da família EcoBoost, que já comentamos acima. E detalhe, esse motor funciona somente com gasolina, não é Flex. Com a instabilidade política internacional, e com os conhecidos problemas que estamos vendo com os preços do petróleo no mundo e da gasolina no Brasil, vale a pena ter um carro com apenas esta opção?A Toro é fabricada no Brasil, gera empregos, cria tecnologias e é Flex.

Só a questão de criar oportunidades de empregos aqui no Brasil já é algo que anima os consumidores. É preciso lembrar que não é só a Fiat que gera empregos diretos, mas ainda nas suas fábricas temos trabalhadores terceirizados em vigilância, segurança, alimentação, limpeza, manutenção, etc. As máquinas de suas fábricas também são produzidas aqui, assim como as lâmpadas da iluminação, o óleo das máquinas e dos carros, máquinas de escritório, papelaria, componentes de manutenção e até o papel higiênico usado nos banheiros.
E isso não se restringe só aos prédios de produção da Fiat, mas também nas fábricas que fornecem os pneus da Toro, vidros, bancos, tintas, etc… etc… e muitos outros “et ceteras”.

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Com o preço “promocional” de lançamento da Maverick, em quase R$ 240.000,00 e com um motor a gasolina, me parece que existem opções mais interessantes no mercado.

Portanto, quando se olha um número isolado, que ainda nem é tão significativo assim, se perde a visibilidade do todo. E a verdade é que a Ford vai precisar mostrar muito mais do que isso para reconquistar o respeito perdido, e não é trazendo carros da Argentina, Uruguai, China e Estados Unidos que ela vai conseguir isso. Se já os modelos nacionais tinham dificuldades, o que dirá dos importados, sujeitos aos altos custos de aquisição e dependente das valorizações e desvalorizações das moedas envolvidas na compra e venda.

Vamos torcer para que a Ford nos apresente algo realmente animador, porque até agora parece que o retrato que ela mostra não é tão fiel assim à realidade, além de bastante preocupante e desanimador para quem pretende investir na marca, e um pouco de cautela é bom nessas horas.

 

1 Comentário

  1. Ford nunca mais. Vergonha o que fizeram com o Brasil e no meio de um momento ruim como esse da pandemia. Não merece a minha confiança nem o meu respeito e nem o meu dinheiro.

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